O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a reacender uma polêmica que, à primeira vista, parece improvável: a ideia de os EUA “comprarem” a Groenlândia. O tema já havia sido levantado durante seu primeiro mandato, mas retorna agora, em 2026, em um cenário internacional bem diferente, e mais tenso. O que soa como exagero ou meme nas redes sociais, na prática, envolve estratégia geopolítica, recursos naturais e segurança global. Para Trump, a proposta é apresentada como uma “grande transação imobiliária”. Para analistas internacionais, o debate vai muito além disso.
Por que esse assunto voltou agora
O argumento público de Trump é econômico. A Groenlândia é um território autônomo ligado à Dinamarca, que paga entre US$ 600 e 700 milhões por ano em subsídios para sustentar a economia local. Para o orçamento dos Estados Unidos, esse valor é considerado relativamente baixo (“troco”, na visão de Washington). Mas o contexto mudou. Com Rússia e China ampliando sua presença no Ártico, a Casa Branca passou a enxergar a Groenlândia como peça-chave para “fechar a porta” da América do Norte a rivais estratégicos. Na lógica americana, a ilha funciona como uma barreira natural de defesa do continente.
O verdadeiro interesse: o “ouro” do século 21
Se não houvesse vantagem concreta, a proposta não existiria. A Groenlândia abriga algumas das maiores reservas não exploradas de terras raras do planeta, segundo levantamentos geológicos internacionais.
Esses metais, como neodímio e praseodímio, são essenciais para a produção de baterias de carros elétricos, turbinas eólicas, chips de computadores e equipamentos militares avançados, incluindo caças como o F-35. Hoje, a China domina cerca de 90% do processamento global desses minérios, de acordo com dados do setor mineral. Para os Estados Unidos, garantir acesso direto a essas reservas significaria reduzir a dependência chinesa em áreas consideradas vitais para o futuro da economia e da defesa.
Além disso, o aquecimento global abriu um novo fator de interesse: com o derretimento das calotas polares, rotas marítimas no Ártico estão se tornando navegáveis. Quem controla a Groenlândia tende a ter influência sobre a rota mais curta entre Europa, América do Norte e Ásia nas próximas décadas.
Segurança e presença militar no Ártico
Do ponto de vista militar, os Estados Unidos já estão presentes na ilha. A Base Espacial de Pituffik (antiga Base Aérea de Thule), no extremo norte da Groenlândia, é a instalação militar americana mais setentrional do planeta. Ela desempenha papel central no sistema de alerta e defesa antimísseis, sendo capaz de detectar lançamentos vindos da Rússia ou Ásia pelo Polo Norte. Comprar a ilha, na visão de estrategistas americanos, eliminaria qualquer risco futuro de restrição à presença dos EUA por decisões políticas locais ou da Dinamarca.
É possível “comprar” um território em 2026?
A resposta curta é: não, a menos que a Groenlândia queira. Embora faça parte do Reino da Dinamarca, a ilha possui governo próprio e alto grau de autonomia. Copenhague responde por defesa e política externa, mas decisões internas passam pelos groenlandeses. Em 2019, a então primeira-ministra dinamarquesa classificou a ideia como “absurda”. Em 2026, a posição tende a ser mais diplomática, mas firme: abertura para negócios e parcerias, não para venda de soberania.
Trump costuma citar precedentes históricos, como a compra da Louisiana (1803), do Alasca (1867) e das Ilhas Virgens (1917). O contraponto jurídico é que, no século 21, o princípio da autodeterminação dos povos impede que territórios habitados sejam tratados como simples ativos imobiliários em uma prancheta de negócios.
O tamanho da disputa
Alguns números ajudam a dimensionar o interesse internacional na Groenlândia:
- Área: mais de 2,1 milhões de km², a maior ilha do mundo (fora continentes).
- População: cerca de 57 mil habitantes.
- Recursos naturais: petróleo, gás, ouro, diamantes, urânio e terras raras.
- Subsídio anual dinamarquês: entre US$ 600 e 700 milhões, segundo dados oficiais.
Mesmo que a compra nunca se concretize, analistas apontam que a insistência de Trump cumpre um objetivo claro: sinalizar que os Estados Unidos não pretendem permitir a expansão chinesa no Ártico. Mais do que um negócio, a Groenlândia se tornou um símbolo da nova disputa por poder global no gelo.


